10 de julho de 2015

Cabo Verde | São Vicente - Diário de Viagem #4


Acordei cedo. Queria aproveitar tudo ao máximo. Fomos caminhar por Mindelo para sentir a dinâmica da cidade aproveitando para rever tudo e comprar alguns souvenirs na Praça da Estrela. Ainda não tinha posto o meu crioulo em prática. Eu sei falar crioulo embora a minha língua-mãe seja o português. E quando estamos nervosos ou muito conscientes de alguma situação, a nossa cabeça vai buscar a língua com a qual nos sentimos mais à vontade, seja para nos expressarmos melhor, defendermo-nos ou argumentarmos. Na Praça da Estrela, sabia que teria de regatear preços senão iam aproveitar-se do meu 'ar de turista'. No entanto, a minha tia estava connosco e interveio nas primeiras negociações.



Comecei a ver que queriam mais do que as coisas valiam e eu tinha de tomar conta da situação. Mesmo a minha tia regateando, sabiam que era para a 'turista'. Então comecei a desbobinar crioulo para cima e para baixo e deixei os nossos amiguinhos vendedores de boca aberta...afinal a 'turista' falava crioulo e teve uns descontos bem jeitosos! Fiquei orgulhosa de mim mesma. Contudo, percebe-se de onde venho porque o meu crioulo tem sotaque português, pelo que orgulhosamente aceito que falo criolês (crioulo + português) - haha! A maioria das pessoas que vende na Praça da Estrela são conhecidos por Mandjaks, imigrantes vindos principalmente do Senegal, Guiné-Bissau, etc. Falei com uma senhora guineense, com quem tivemos uma negociação difícil, mas no fim quando elogiei o tecido do seu vestido (que era uma capulana linda!) ficámos por momentos as melhores amigas :D


Depois, passámos pelo Mercado de Peixe, pela réplica da Torre de Belém e pela estátua de Diogo Afonso - navegador português do século XV. Parámos ali para admirar aquele mar azul e o Monte Cara. As casas e monumentos de estilo colonial, com aquelas cores vivas que transmitem o quente de África são hipnotizantes. É impossível não ficar admirado a cada esquina.


Fomos ainda à Rua de Lisboa onde podem encontrar o mítico Café Lisboa, e onde no alto da rua se avista o Palácio do Povo, outro belo edifício com o cunho do período colonial. De seguida, na Pracinha de Igreja, visitámos a Igreja de Nossa Senhora da Luz que data de 1862. E não podia deixar de dar um saltinho à Praça Nova - agora também chamada Praça Amílcar Cabral - mas só nos faltou dar uma olhadela ao Museu de Arte Tradicional que é o mais importante de São Vicente.


Já cansados desta manhã agitada, parámos no Pastelaria Morabeza para beber um refresco. Todos beberam algo fresco, de facto, menos eu. Esqueci-me que podia variar um bocadinho e fui pedir uma bica. Hahaha! Ya, um café! Podia pedir um sumo de frutas natural, uma cena mais tropical. Mas não, pensei que ainda estava ali num qualquer café em Lisboa. E nem de propósito, fiquei a saber que os donos deste café em Mindelo eram portugueses. E o meu conselho, depois das visitas obrigatórias, é que se percam pela cidade, que andem sem destino pela Morada (equivalente a Baixa da cidade) - vão surpreender-se a cada rua. A Laginha, essa praia linda bem no centro de Mindelo, ficou para outro dia.


Bem, tudo isto aconteceu numa única manhã! É que já tinha almoço marcado com uma prima no Madeiral, uma zona rural da ilha de São Vicente. Lá fomos para o Madeiral e revisitei a quinta que outrora foi um grande restaurante (Rancho Carmel). Agora é uma quinta com criação de galinhas, porcos, porquinhos-da-índia, algumas cabras. E couves, batatas, alface, várias espécies de árvores, entre elas bananeiras. Os meus primos disseram que ainda não está tudo como pretendem mas estão a esforçar-se para isso. Passámos a tarde a conversar, a andar um pouco por lá, a ver fotos e, claro, a admirar aquelas montanhas que nos rodeavam majestosamente. Fiquei muito emocionada por saber que o meu tio ainda tem a viola que era da minha mãe quando ela tinha 17 anos.


Quando voltámos para  Mindelo, terminámos o dia a ler os poemas que o meu tio escreve tão bem e a ver uma mina de ouro de aprendizagem de crioulo cabo-verdiano que ele guarda no computador. Ele dá aulas de francês e português. Mas agora também dá aulas de crioulo a estrangeiros. Nunca vi nada assim, módulos e níveis de ensinamento de crioulo cabo-verdiano tão bem estruturados. Aquilo devia ser publicado, já lhe disse!


E no dia seguinte ia ter das maiores aventuras desta viagem. Já tinha uma ideia mas não sabia que ia ser tão divertido! Santo Antão é a ilha protagonista do diário de viagem #5.


DIÁRIO DE VIAGEM COMPLETO


Viagem: Março 2015

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