11 de janeiro de 2014

Take Me Away | O Semblante

Nas minhas viagens diárias, de casa para o trabalho e vice-versa, observo o meio e as pessoas à minha volta. E cada dia que passa, percebo que há muita gente triste, mesmo muita gente. Claro que não estou à espera de ver pessoas saltitantes no meio do autocarro, ou que sorriam a toda e qualquer alminha. Falo do semblante. Não é leve, não é despreocupado, não é sereno. O que tenho observado é que, antes, via esse semblante maioritariamente em pessoas mais velhas que, no decorrer das preocupações da vida, considerava natural terem um semblante carregado. São as contas, a casa, o trabalho, os filhos, o marido ou a mulher. A vida! 

E o que vejo agora são jovens com o mesmo peso nas suas expressões faciais. Corrijo, na sua expressão facial. Porque é só uma, não muda durante toda a viagem. Eu sei o porquê daquele semblante, eu sei que também o envergo. Sei que nessas minha viagens diárias carrego o peso da desilusão. Não quero que se pense que não dou graças a todos os santinhos por ter trabalho, eu dou! E não quero que se pense que me queixo mas que não faço nada para melhorar de vida, eu faço! Pensar e julgar o que os outros deviam fazer é fácil. É uma dicotomia constante porque crescemos com perspectivas de um futuro melhor, de pelo menos ganhar mais que os nossos pais, de pelo menos ter um pouco mais para podermos retribuir mais tarde a quem nos criou com tanto esforço. De termos um pouco mais para sermos financeiramente independentes, só isso, independentes.


Aquele semblante, carrega mágoa, tristeza, desilusão e a falta de luz que ilumine um caminho de que nos falaram durante toda a vida e que, afinal, já não existe! É irreal pensar que todas as pessoas têm capacidade de liderar e gerir, por isso, a conversa do empreendedorismo jovem já cansa. Foi a mesma coisa de quando venderam a ideia de que devíamos ser todos doutores. E conseguiram! O que não falta são doutores, aliás, doutores desempregados ou com trabalho precário. Até parece que um país vive apenas de licenciados, quando sabemos perfeitamente que as profissões ditas menos nobres e mais braçais, são as que movem realmente o país. Quando eles param, tudo pára! Se nós, os doutores, pararmos quase ninguém repara.

Há um mês, no autocarro, um velhote disse-me: "Porque está assim tão triste? É tão novinha". E eu disse com um sorriso meio desajeitado: "Não, eu não estou triste". E pensei de imediato: "Será que estou? O que é que as pessoas vêem na minha expressão?". E respondi a mim mesma: " Vêem aquilo que tens visto nos outros". Penso que o meu semblante tem perspectivas de ser melhorado, mais tarde ou mais cedo, terei de tomar decisões drásticas, tal como muitos outros jovens. Pensar que o tempo não pára, que se pretende construir família, que se tem objectivos de vida a cumprir. Que se quer, pelo menos, ganhar mais que o limite do aceitável - o que poderá ter muitas interpretações do que se considera aceitável.

E é assim, uns ficam cá na esperança de encontrar algo melhor e outros partem para o desconhecido. Por coragem ou por necessidade. Ou as duas coisas. Uns criam e lideram, outros seguem e contribuem para o crescimento do que foi criado. Alguns vencem e muitos perdem. 


7 comentários:

  1. «Nas minhas viagens diárias, de casa para o trabalho e vice-versa, observo o meio e as pessoas à minha volta. E cada dia que passa, percebo que há muita gente triste, mesmo muita gente.»

    Sem dúvida; reparo no mesmo. Nas expressões pesadas, cansadas, sem brilho que passam por mim. Como se o simples facto de terem de caminhar, para casa ou para a estação ou para sabe-se-lá-onde fosse um fardo. Pelo menos é o que me parece. Que as pessoas andam mais triste e pesarosas. E tento imaginar a história de cada uma; mas é impossível. Como posso adivinhar as tristezas ou dificuldades por que já passaram. Só penso, para mim mesma, em segredo, que as coisas melhorem, lhes corram melhor. Quanto a mim, embora não ande a mostrar os dentes no mais largo sorriso sempre que caminho por este mundo fora, sei que estou feliz; e isso vê-se no olhar. Ou no sorriso que esboço, sozinha, ao lembrar-me de uma história engraçada ou daquelas palavras dele, daquele gesto especial. E sim, assim sou feliz :) Gostei muito das tuas palavras e antes de me despedir, minha querida, o colar é da H&M e havia nese tom rosa muito bonito e em preto. Ainda és capaz de o encontrar por lá :)

    Um beijinho, Sara ♥
    http://littletinypiecesofme.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada pelas tuas palavras. Sinto-me afortunada no sentido em que tenho o essencial: família, amor, saúde e trabalho. Isto é o mais importante. Mas depois lá vêm as frustrações de ter estudado tanto para (quase) nada, de me ter esforçado tanto, de ter corrido sempre atrás do que quero, de nunca ter parado de trabalhar para alcançar objectivos profissionais e pessoais. Ainda não vi resultados. E olha que me mexo muito para ter as coisas. Mas nem sempre as coisas conspiram a nosso favor. Sei que por ter o essencial (família, amor, saúde e trabalho), tenho a base para não desistir em hipótese alguma.

      Bjnhos :D

      Eliminar
  2. Penso que os que ficam na esperança de encontrar algo melhor, são os mais eludidos, porque na verdade sabemos que "isto" não tem qualquer tipo de melhorias, nem num futuro próximo, nem num futuro longínquo. Portugal não tem futuro, a meu ver. Nem para nós, nem para as gerações futuras.

    Quanto aos outros, partem por necessidade, por coragem, rumo ao desconhecido, á aventura e de uma vida melhor. =)

    Um beijinho, Andreia. ♡
    http://pontofinalparagrafos.blogspot.pt

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É verdade. Não vejo luz ao fundo do túnel, por mais que me esforce a nível profissional. Tudo vai melhorar, se não for aqui será noutro lado qualquer.

      ;) Bjnho

      Eliminar
  3. gostei muito deste post! desde que descobri o teu blog, cada vez gosto mais dele.. já te sigo! se quiseres, segue de volta por favor :)

    La Joie de Vivre!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sigo o teu blog desde que o encontrei, não poderia perder pitada das tuas aventuras :D

      Sigo com o nome Tripping in Trips.

      Bjnho

      Eliminar
  4. Eu tenho reparado no mesmo... É triste :\

    ResponderEliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...