17 de outubro de 2013

Take Me Away | Vamos Viajar pelo Passado?

Este é um passado que não vivi mas está presente na minha vida todos os dias. Um passado que em termos históricos não é longínquo, está inquietantemente perto de nós. Sabem qual é a sensação de viver uma época que não a vossa? De sentir a ansiedade de um medo que não se viveu? Eu sei, eu sinto. Não penso nisto todos os dias, raramente penso. Talvez isso aconteça porque nasci e cresci envolta dessa história: África, a guerra, as despedidas, as perdas, o desconhecido, a nova vida com poucas perspectivas. 

Quero saber mais sobre o local onde ele nasceu, onde deu os primeiros passos, onde estudou e se tornou homem, onde foi obrigado a alistar-se porque era filho de militar português, onde combateu durante 5 anos, onde perdeu o seu pai, onde conheceu e se casou com a minha mãe. O local, Angola. Angola que guarda parte da minha história paterna, onde não tenho raízes de sangue mas raízes culturais que, por vezes, conseguem ser ainda mais fortes. Raízes que cresceram do nascimento de gentes de origem madeirense, cujos olhos apenas viram a imensidão das terras angolanas e a sua beleza natural. 

Gentes de pele branca que viam os angolanos de sangue de uma forma paternalista exacerbada, moldando a maioria a um sentimento de serventia e pertença. Sentimentos que se misturavam com outros, a revolta e ressentimento. Foram séculos de escravatura, e depois da abolição, foram dezenas de anos de submissão e outros tantos de descolonização inexistente. As consequências do passado implodiram dentro do diamante de África, atirando jovens portugueses e angolanos - que ainda não tinham contribuído com a sua estória para a História - para uma mata qualquer. 



Matar para não morrer, por vezes não aconteceu. Fechava os olhos para não matar amigos de um tempo que outrora era perfeito. Ele diz, eu sou angolano. E é! Foi com 26 anos, a minha idade, que ele foi obrigado a sair de Angola, a sua terra. Nunca tinha viajado. Chegou a Portugal como retornado. Retornado? Como pode ser retornado? Como é que se pode voltar a um sítio onde nunca se esteve?  Não conhecia nada nem ninguém. Apenas os caminhos de ferro, as montanhas e rios que tivera de decorar na escola em Angola. Conhecia os caminhos de Portugal pelos livros e os caminhos de Angola pelos seus próprios pés.

Passaram 37 anos e nunca regressou a Angola. É muito tempo. Ponho-me no seu lugar e imagino-me a sair forçada de Portugal sabendo que os filhos da terra não me queriam culpando-me pelo que os meus antepassados fizeram. Que dor, que revolta, que mágoa. E mesmo havendo condições para ele visitar a sua terra, ele não quer. Prefere perpetuar a sua Angola perfeita, aquela em que foi feliz. A sua casa já não deve existir, ainda há muitos locais destruídos que já foram vibrantes! "Eles não me quiseram lá, não volto!", di-lo com revolta mas os seus olhos chamam por Angola com sofrimento. Sofro por ele. Quero que um dia ele volte mas tenho receio que a emoção ultrapasse o tamanho do seu coração. Eu hei-de ir, preciso de pisar o chão onde está escrita uma parte da minha história.

Ele ficou com as fotos, com as memórias, com os fantasmas, com a cultura e com os ritmos africanos na alma. Adora fazer moamba, calulu e funge. Sente-se assim mais perto da terra que um dia, neste turbilhão que é a nossa história, não o quis. E se o quis, não o fez sentir-se querido. De quem é a culpa? De quem? De todos e de ninguém!





Fotografias captadas: Álbum de fotografias do meu pai.

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